Cura pelo semelhante

Da redação

Em grego, o termo homeopatia significa “cura pelo semelhante”. A especialidade surgiu no início do século 20 e é atribuída a sua descoberta ao médico alemão Hahnneman, considerado o “pai da homeopatia”.

Em uma época em que a malária matava assustadoramente, o especialista descobriu que era possível reproduzir os sintomas da doença em uma pessoa sadia por meio do mesmo medicamento usado para curá-la. Com isso, o alemão passou a pesquisar diversas dosagens e fórmulas para medicamentos, o que se transformou no tratamento homeopático usado atualmente.

Diferente da alopatia, outra forma de tratamento no qual são usados medicamentos mais fortes e de origem quase que completamente industrial, na homeopatia os medicamentos podem ser de origem vegetal, com extrato de plantas, ervas e de alimentos; animal, por meio da utilização do veneno de cobra, por exemplo; e mineral, com o uso das grafites.

“A alopatia, na maioria das vezes, tem como objetivo apenas sanar os sintomas da doença. O que devemos pensar é que estes mesmos sinais podem ser bons, pois avisam o que está acontecendo com o paciente, além de ser uma forma comum de o organismo demonstrar que está tentando combater o problema sozinho”, aponta a homeopata Célia Cristina Lopes Machado.

A homeopatia pode ser usada para qualquer doença. Segundo a especialista, ótimos resultados costumam ser obtidos em doenças infecciosas e crônicas, mas é preciso ter critérios para o uso deste tipo de medicamento. “Mesmo quando a homeopatia não pode ser utilizada em sua plenitude, ainda pode ser um fator de melhora na qualidade de vida, favorecendo os resultados com os medicamentos alopáticos. É importante, em determinados casos, que os dois caminhos se encontrem”, comenta.

Além das bolinhas aparentemente açucaradas e o líquido com gosto parecido com o do álcool, meios mais tradicionais de se ministrar um tratamento homeopático, é também possível indicar o uso de pomadas e supositórios com a mesma fórmula. “Tudo depende do paciente, de sua idade e do que o médico considera mais apropriado. Em crianças pequenas é mais comum o uso do medicamento líquido”, destaca.

Para a médica, a principal vantagem no uso do tratamento homeopático é sua ação fortalecedora do organismo, fazendo com que ele mesmo reaja às doenças sem deixar com que os sintomas voltem.

“Se for usado um antibiótico no tratamento, por exemplo, alguns corpos como bactérias e vírus ainda podem continuar dentro do organismo, o que favorece o reaparecimento da mesma doença, só que com agentes causadores mais resistentes, onde deverão ser usados medicamentos mais fortes”, ressalta a médica.

Durante a primeira consulta é feita uma entrevista para que o médico tenha claro qual a personalidade do paciente e se o mesmo desenvolveu os sintomas devido a algum problema psicológico. “Há uma avaliação do estado psicológico e da personalidade do paciente. Características como agitação, ansiedade e a tendência ao sofrimento por antecedência podem desencadear diversas doenças”, explica a homeopata.

Longo prazo?

Diferente do que se pensa, o tratamento não pode ser considerado de “longo prazo”, pois desde as primeiras doses o paciente já sofre alterações em seu estado clínico geral. “O homeopata sabe que o tratamento está dando certo quando órgãos mais nobres começam a melhorar. No caso da bronquite, por exemplo, é comum que logo após o início do tratamento, o paciente desenvolva algumas lesões na pele. Isso pode assustar, mas significa que o pulmão está melhorando, expelindo o que há de ruim”, exemplifica.

O tratamento homeopático pode começar em qualquer idade, mas é aconselhável que seja iniciado desde criança, para que haja uma melhor adaptação do organismo aos efeitos dos medicamentos.

Uma dica importante é não comer, beber ou escovar os dentes logo depois de ingerir as doses do medicamento, pois podem cortar sua ação. “É bom que o paciente dê preferência a uma alimentação saudável e à prática de exercícios físicos”, aconselha a especialista.

Fonte: Boqueirão

As plantas aquáticas no contexto da Botânica

Por: Miguel Angelo Pandini

Introdução

Todo aquarista, seja iniciante ou veterano, lidando com seus peixes ou plantas aquáticas, às vezes se depara com uma situação peculiar: a identificação precisa dos seres vivos os quais está criando ou cultivando. Quando falamos em identificação precisa, nos referimos ao seu nome científico, acompanhado de sua posição taxonômica, ou seja, sua posição dentro da grande escala de classificação dos seres vivos. Mas, o que seria isso, para nós, aquaristas? Não seria mais conveniente, e menos trabalhoso, se conhecêssemos nossos peixes e plantas apenas pelos seus nomes vulgares?

Histórico

Chamamos Sistemática ou Taxonomia a área da Biologia que cuida da identificação dos indivíduos e de seus respectivos agrupamentos, sendo estes os mais conhecidos o gênero e a espécie. Mas, esse ramo da ciência é praticamente recente.

Desde a antiguidade até fins do século XVII, os seres vivos eram classificados arbitrariamente, pois não havia um critério de consenso que determinasse qualquer característica em comum entre eles. Cada cientista empregava seu método, resultando em algo bem pior do que listagens de nomes vulgares.

Somente no século XVIII, o naturalista sueco Carl von Linné, que depois ficou mundialmente conhecido como Linnaeus, elaborou um criterioso sistema de classificação, baseado no conceito de espécie formulado pelo inglês John Ray no final do século anterior, que classificava os seres vivos de acordo com a sua semelhança a diversos tipos preestabelecidos. Em meados do século XIX, com a descoberta dos cromossomos e dos genes, e consequente confirmação da Teoria Evolucionista de Charles Darwin, o sistema foi definitivamente aperfeiçoado, sendo que o agrupamento dos seres vivos passou a ser feito segundo uma ordenação filogenética (do grego phile = ordem, série; genesis = criação), ou seja, de acordo com o grau de parentesco entre eles.

A Sistemática de Linnaeus

Considera-se, para efeito de classificação, que a afinidade entre os diversos organismos é tanto maior quanto mais próximos estiverem de um mesmo ancestral, evolutivamente. Assim, espécies de um mesmo gênero possuem mais características comuns, assim como os gêneros de uma mesma família, e assim por diante. Esse sistema natural utiliza o maior número possível de dados, obtidos, entre outros, da morfologia externa e interna, fisiologia, ecologia e análise dos cromossomos, levando-se em conta, também, os eventuais resultados de estudos de fósseis.

Assim, podemos definir espécie – unidade básica do sistema de classificação – como sendo um agrupamento de indivíduos semelhantes e procedentes de um ancestral comum que, pela seleção natural, sob a influência do meio ambiente, adquiriu características próprias que o diferenciam de todos os demais seres vivos, sendo que tal conceito de espécie é confirmado na prática pela possibilidade de reprodução sexuada entre os indivíduos que dela fazem parte.

Na nomenclatura dos seres vivos, escolheu-se utilizar uma língua já extinta – o latim– tanto para escrita como para a pronúncia, sendo que para cada categoria sistemática entre Divisão (Filo) e Família há um sufixo latino característico (havendo exceções). Categorias intermediárias também são utilizadas para indicar com maior exatidão a filogenia.

Para a designação da espécie, ficou convencionado o uso de nome binário, em caracteres grifados – negrito ou itálico – se impresso, ou sublinhado, se manuscrito, o primeiro relativo ao gênero – palavra única, no nominativo singular, com a primeira letra maiúscula e as demais minúsculas – e o segundo à espécie propriamente dita – palavra simples ou composta, gramaticalmente concordante com o nome genérico, e com todas as letras minúsculas – havendo, ainda a possibilidade da existência de um terceiro nome, precedido de um termo às vezes abreviado, que poderá indicar variações intraespecíficas, que em Botânica recebem o nome de subespécie (ssp.), variedade (var.) e forma. Exemplificando: Rorippa nasturtium-aquaticum;
Sagittaria subulata
var. kurziana; Vallisneria spiralis forma
nana
.

Quando se quer referir a uma espécie ainda não totalmente classificada ou simplesmente desconhecida, da qual só se conhecesse o gênero, usa-se o primeiro nome seguido de "sp.": Echinodorus sp.; de maneira semelhante, refere-se ao nome de subespécie desconhecida, acrescentando-se "ssp.".

Muitas vezes, os nomes referem-se a alguma característica marcante (morfológica, fisiológica, ou ecológica), região ou localidade onde a espécie foi encontrada, ou pessoa que se queira homenagear. E tudo isso em latim, é claro.

Em trabalhos científicos e folhas de herbário é obrigatória indicação do nome – inteiro ou abreviado – da pessoa que fez a classificação pela primeira vez. Quando são duas, usa-se a conjunção latina "et" entre seus nomes. Caso a espécie seja reclassificada, passando de um gênero para outro, coloca-se o nome do autor ou autores da primeira classificação entre parênteses, seguido do nome da pessoa (ou pessoas) que fez a reclassificação. Por exemplo: Schott classificou certa espécie de planta como sendo Cryptocoryne gomezzi, sendo que, futuramente, Bogner e Jacobsen a reclassificaram como Lagenandra gomezzi; assim, de acordo com as convenções científicas, Cryptocoryne gomezzi Schott passou a se chamar Lagenandra gomezzi (Schott) Bogner et Jacobsen. Há ainda outras regras para alterações de nomes, que devido à pouca utilidade para nós, amadores, serão omitidas. Por comodidade, usaremos os nomes científicos de forma mais simplificada.

Em Botânica, são as seguintes as categorias sistemáticas, em escala descendente, com os respectivos sufixos mais usados, para o caso das algas e cormófitas (vegetais com raízes, caule e folhas):

Categoria

Sistemática

Sufixos

Algas

Cormófitas

Divisão

-phyta

-phyta

Subdivisão

-phytina

-phytina

Classe

-phyceae

-opsida

Subclasse

-phycidae

-idae

Ordem

-ales

-ales

Subordem

-inae

-inae

Família

-aceae

-aceae

Subfamília

-oidea

-oidea

Tribo

-eae

-eae

Subtribo

-ineae

-ineae

A seguir, apresentamos uma tabela com a classificação simplificada das principais plantas de aquário (ou melhor dizendo: plantas hidrófilas) conhecidas, com as divisões, famílias e os principais gêneros, lembrando que as condições de pH, dureza, luz, temperatura, exigências quanto ao substrato, etc., via de regra costumam ser semelhantes entre as mais próximas na hierarquia de parentesco:

DIVISÃO

FAMÍLIA

GÊNERO

Tipo predominante das espécies (*)

CHAROPHYTA

(algas pluricelulares)

Characeae Nitella Aquáticas obrigatórias.

BHYOPHYTA

(Musgos e hepáticas)

Ricciaceae Riccia Flutuantes e submersas.
Hypnaceae Vesicularia Anfíbias.
Pallaviciniaceae Symphyogyna Anfíbias

PTERIDOPHYTA

(Samambaias, avencas, licopódios)

Isoetaceae Isoetes Aquáticas e anfíbias.
Acrostichaceae Acrosticum Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Azollaceae Azolla Flutuantes.
Ceratopteridaceae Ceratopteris Anfíbias.
Marsileaceae Marsilea Anfíbias.
Pilularia Anfíbias.
Polypodiaceae Bolbitis Anfíbias.
Microsorium Anfíbias
Salviniaceae Salvinia Flutuantes.

SPERMATOPHYTA

(Plantas superiores)

Acanthaceae Hygrophila Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Alismataceae Echinodorus Aquáticas obrigatórias, palustres, adaptáveis ao meio
aquático e anfíbias.
Sagittaria Aquáticas obrigatórias e aquáticas com folhas flutuantes.
Amaranthaceae Alternanthera Aquáticas obrigatórias e anfíbias.
Amaryllidaceae Crinum Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Apiaceae Hydrocotyle Aquáticas com folhas flutuantes e anfíbias.
Lilaeopsis Anfíbias.
Aponogetonaceae Aponogeton Aquáticas obrigatórias e aquáticas com folhas flutuantes.
Araceae Anthurium Anfíbias.
Acorus Anfíbias
Anubias Anfíbias.
Crytocoryne Palustres adaptáveis ao meio aquático, aquáticas
obrigatórias e anfíbias.
Lagenandra Palustres adaptáveis ao meio aquático e anfíbias.
Pistia Flutuantes.
Spathiphyllum Anfíbias.
Syngonium Anfíbias.
Barclayaceae Barclaya Aquáticas obrigatórias.
Brassicaceae Cardamine Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Rorippa Aquáticas obrigatórias.
Cabombaceae Cabomba Aquáticas com folhas flutuantes.
Callitrichaceae Callitriche Palustres adaptáveis ao meio aquático e aquáticas
obrigatórias.
Ceratophyllaceae Ceratophyllum Aquáticas obrigatórias.
Crassulaceae Crassula Anfíbias.
Cyperaceae Cyperus Anfíbias.
Eleocharis Anfíbias.
Eriocaulaceae Eriocaulon Anfíbias.
Euphorbiaceae Phyllanthus Flutuante.
Haloragaceae Myriophyllum Palustres adaptáveis ao meio aquático, e aquáticas
obrigatórias.
Proserpinaca Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Hydrocharitaceae Blyxa Aquáticas obrigatórias.
Egeria Aquáticas obrigatórias.
Hydrilla Aquáticas obrigatórias.
Lagarosiphon Aquáticas obrigatórias.
Limnobium Flutuantes.
Ottelia Aquáticas obrigatórias.
Vallisneria Aquáticas obrigatórias.
Lamiaceae Hyptis Anfíbias.
Lemnaceae Lemna Flutuantes.
Pseudowolffia Flutuantes.
Spirodela Flutuantes.
Wolffia Flutuantes.
Wolffiella Flutuantes.
Wolffiopsis Flutuantes.
Lentibulariaceae Utricularia Aquáticas obrigatórias e flutuantes.
Lilaeaceae Ophiopogon Anfíbias.
Limnocharitaceae Hydrocleys Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Lobeliaceae Lobelia Anfíbias.
Lythraceae Ammania Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Didiplis Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Rotala Palustres adaptáveis ao meio aquático e aquáticas
obrigatórias.
Mayacaceae Mayaca Palustres adaptáveis ao meio aquático e anfíbias.
Melastomaceae Aciotis Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Menyanthaceae Nymphoides Aquáticas com folhas flutuantes.
Villarsia Aquáticas com folhas flutuantes.
Najadaceae Najas Aquáticas obrigatórias.
Nymphaeaceae Nuphar Aquáticas obrigatórias e aquáticas com folhas flutuantes.
Nymphaea Aquáticas com folhas flutuantes.
Onagraceae Ludwigia Palustres adaptáveis ao meio aquático e aquáticas
obrigatórias.
Plantaginaceae Littorella Aquáticas obrigatórias.
Podostemonaceae Mourera Aquáticas obrigatórias.
Polygonaceae Polygonum Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Pontederiaceae Eichhornia Palustres adaptáveis ao meio aquático, anfíbias e
flutuantes.
Heteranthera Palustres adaptáveis ao meio aquático e aquáticas com
folhas flutuantes.
Potamogetonaceae Potamogeton Aquáticas com folhas flutuantes.
Primulaceae Hottonia Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Lysimachia Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Samolus Anfíbias.
Saururaceae Houttuynia Anfíbias.
Saururus Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Scrophulariaceae Bacopa Palustres adaptáveis ao meio aquático e anfibias.
Glossostigma Palustres adaptáveis ao meio aquático e aquáticas
obrigatórias.
Limnophila Palustres adaptáveis ao meio aquático.
Micrantemum Anfíbias.
Trapaceae Trapa Aquática com folhas flutuantes.

Fonte: [ Revista @qua ]

O mar não está para peixes

Por Anderson Porto

Foto: Anderson Porto
Foto: Lixo nas areias da praia de Icaraí (Anderson Porto)
5 de Junho de 2006, Dia Mundial do Meio Ambiente.

Na manhã de segunda-feira, acordei disposto a fazer umas fotos da ressaca que está produzindo ondas imensas aqui na praia de Icaraí/RJ.

Ao chegar no calçadão da praia avistei uma cena pra lá de triste: a areia da praia estava tomada de lixo em um trecho bem grande. Trazida pela maré, o mar regurgitou nas areias, fruto de sua ressaca, parte do lixo que é atirado todos os dias em suas águas.

A foto vale mais que mil palavras.

Encontrei uma cidadã indignada com aquilo. Me contou que anda todo dia pelo calçadão e não acreditou quando avistou de longe aquele amontoado de lixo. Teve que chegar perto para conferir.

Conversando com os garis que tentavam fazer a limpeza antes da maré subir, todos me davam indignados o mesmo motivo: o povo é muito mal educado. “– O povo joga o lixo nas águas, e acaba que o mar depois trás tudo de volta”, dizia um. “Tudo que os favelados jogam nos rios e encostas acaba indo parar no mar. O resultado é esse aí, uma porcaria que dá desgosto de ver”, tentava explicar outro.

Dia Mundial do Meio Ambiente, o mar revoltado ao mesmo tempo que provia ondas perfeitas para os surfistas, tentava chamar a atenção da população para o descaso, para a falta de educação, para o despreparo de uma sociedade organizada em lidar com os restos de seu excesso de consumo?

Existem sim milhares de soluções como a reciclagem do lixo, a coleta seletiva, a utilização de plásticos biodegradáveis, sacos de papel, a compostagem orgânica com restos de alimentos, o reaproveitamento de materiais… As soluções existem, por que será que não são colocadas em prática?

Por causa da falta de educação? Falta de dinheiro? Falta de vontade?

Voltei pra casa triste. Triste porque este mar, que nos fornece alimentos e diversão está sendo castigado de tal forma que as próximas gerações que vierem a habitar o planeta entenderão bem o dito popular “o mar não está para peixes“, só que por outros motivos.

Drogas: legalizar, tolerar ou proibir

Francisco Ribeiro Tavares*

Delegacia de repressão a entorpecentes, Divisão de repressão a entorpecentes, Coordenação de repressão a entorpecentes, Departamento de Narcóticos, e muitos outros cargos e funções de nomes pomposos. É o que rendeu até agora a luta especializada da polícia contra o tráfico de drogas. Milhares de cruzeiros, cruzados, reais e até dólares, gastos neste combate. Dezenas de policiais mortos, feridos, acuados ou corrompidos na luta diária contra as drogas.

Ah, não sejamos injustos, muita estatística também foi produzida por vários envolvidos nesta luta. Estatísticas estas todas tristes, mais ainda, estarrecedoras e desconcertantes. Tantos milhões de viciados e entre esses um alto percentual de soropositivos contaminados pelo compartilhamento de seringas. Tantos milhões de dólares aplicados no combate aos entorpecentes, em vez de em casas populares, geração de empregos, saneamento básico, etc.

Infelizmente não pára por aí, colecionamos ainda outros dados alarmantes, como por exemplo um número enorme de jovens e pais de família viciados, muitos policiais confusos, desviados, corrompidos, feridos ou mortos, pelo poder dos cartéis das drogas. Vidas inocentes ceifadas ou abreviadas por balas perdidas ou em confrontos com rivais. E, o que torna ainda mais improfícua toda a ação antidrogas, o poderoso aparato de apoio ao crime montado nas entranhas da própria polícia, do Ministério público, do Judiciário, das instituições financeiras, e até do Poder Legislativo em todos os níveis, que revive os Judas e os lobos em pele de cordeiro.

Em artigo publicado em julho de 2001, a conceituada revista The Economist cita que, apesar de os EUA gastarem de 35 a 40 bilhões de dólares ao ano, do contribuinte americano, no combate às drogas, o preço da cocaína e da heroína, caíram pela metade nas décadas de 1980 e 1990, o que significa que aumentou a oferta. Não é de todo descabida a desconfiança de que a superpotência americana usa o proibicionismo extremo das drogas apenas como uma desculpa para intervir, às vezes militarmente, em países como Colômbia, Bolívia, Peru, Afeganistão, Turquia, e manter assim sua influência global.

No entanto, afortunadamente o ser humano sofre de otimismo crônico e todos ficam tranqüilizados ao ouvir que agora o crime organizado está sendo enfrentado da forma correta, através do combate globalizado à lavagem de dinheiro. Longe de nós querermos ser agourentos, mas não conseguimos nos furtar à seguinte reflexão: será que o dinheiro sujo do crime e o dinheiro sujo da corrupção não usam as mesmas lavanderias? Será que os políticos e poderosos deixariam que se aprofundasse uma investigação que desvendasse suas artimanhas?

O certo é que a droga é motivo de guerra e destruição desde final do século XIX com a Guerra do Ópio, que terminou com a China entregando Hong-Kong à Inglaterra por 150 anos, como compensação por ter destruído 1300 toneladas de ópio da Índia, então colônia inglesa. Mais tarde, em 1909, na Conferência de Xangai, várias nações reunidas decidiram pela proibição da produção do ópio, proibição esta não muito obedecida. A China procurou então, apoio nos já influentes Estados Unidos da América, através da Liga das Nações, e foi convocada em 1911 a Convenção de Haia.

A China pretendia obter na Liga das Nações uma resolução que proibisse a Inglaterra de continuar produzindo ópio em suas colônias asiáticas. Isso demonstra, desde aqueles tempos, como a questão das drogas se mistura com economia e política, na presteza com que os Estados Unidos apoiaram a pretensão chinesa, que atingiria uma importante fonte de renda e poder do Império Britânico. A Inglaterra, então, para não perder sozinha, exigiu que fossem incluídos nas discussões os derivados do ópio, como a morfina, a heroína e a codeína, e também a cocaína. A Convenção de Haia se encerrou em janeiro de 1912 com a proibição da cocaína, do ópio e de seus derivados, excetuando-se desta proibição a codeína, que tem largo uso medicinal. Não é à toa que a década de 1920, quando efetivamente entrou em vigor a Convenção de Haia, ficou marcada pelo surgimento de grupos criminosos violentos e organizados, a maioria deles ligados ao comércio de drogas.

Têm surgido, atualmente, em todos os continentes, vários movimentos anti-proibicionismo, alguns defendendo a liberação ou a descriminalização do uso da maconha, outros o mesmo tratamento só que para todas as drogas atualmente proibidas. E há ainda os que defendem não só a descriminalização mas a legalização total de todas as drogas.

Todos os que defendem essas posições se apóiam em argumentos interessantes. Como já citado antes, em que pese o volume sempre crescente de recursos gastos no combate às drogas, essas se disseminam em progressão geométrica pelo mundo, o que nos evoca a figura mitológica da Hidra de Lerna, que ao ter uma de suas cabeças cortadas, imediatamente a recriava. Os adeptos da liberação defendem ainda, que a proibição cria o “efeito do fruto proibido”, fazendo crescer o consumo principalmente entre os jovens. Outro tema largamente discutido, inclusive em meios acadêmicos e jurídicos, é o destino dado aos recursos arrecadados pelo tráfico de drogas. Sendo dinheiro de origem ilícita, obviamente não circula pelos canais da economia, alimentando o crime organizado como um todo, a corrupção policial e do judiciário, e mesmo financiando campanhas de políticos comprometidos com os interesses de seus financiadores.

O fato é que o tráfico de drogas, entre outros fatores, insufla a violência e a criminalidade, trazendo insegurança generalizada à sociedade. Após quase um século da implementação das proibições da Convenção de Haia, não há muito a comemorar quanto aos benefícios trazidos por ela. O volume de drogas consumido cresce a cada ano, novas drogas sintéticas de efeito maléfico impressionante no organismo surgem constantemente. Uma intervenção militar e policial não declarada dos EUA na Colômbia, não foi capaz de erradicar os plantios de coca e papoula na região, tendo como resultado mais comemorado a prisão e a morte de Pablo Escobar, o que serviu apenas para fazerem surgir novas lideranças e novos cartéis, mais modernizados e organizados, como a Hidra da mitologia.

Diversas personalidades políticas e intelectuais pelo mundo, acenam com a necessidade de ao menos repensar o atual sistema de repressão às drogas. Em recente solenidade comemorativa dos 200 anos da Universidade de Antioquia na Colômbia, que contou com a presença do presidente Álvaro Uribe, o escritor colombiano Garcia Márquez disse “…não é imaginável o fim do tráfico sem que se produza a legalização do consumo”. Em outro documento intitulado “À Pátria amada, ainda que distante”, o mesmo Garcia Márquez defende que “não é possível imaginar o fim da violência na Colômbia sem a eliminação do narcotráfico, e não é possível imaginar o fim do narcotráfico sem a legalização da droga, mais próspera a cada instante, quanto mais é proibida”.

Em recente artigo intitulado “A droga e a dependência da ONU”, Walter Fanganiello Maierovitch, ex Secretário Nacional Anti-drogas, e conhecido adversário do proibicionismo extremo da política americana conhecida como “War on Drugs”, guerra às drogas, cita relatório da ONU que estima uma movimentação anual de US$400 bilhões do tráfico de drogas, mais US$ 290 bilhões do tráfico de armas”, e diz que todo esse montante circula pelos canais internacionais de lavagem de dinheiro. Maierovitch cita ainda, o desconforto e isolamento dos representantes americanos nos órgão multilaterais da ONU que lidam com a questão das drogas, e em seus relatórios criticam asperamente as ONG’s que procuram introduzir políticas de redução de danos, que segundo eles seria um passo em direção à legalização.

Walter Maierovitch se refere ainda, a novas políticas que têm sido implementadas por diferentes países europeus, como Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suíça, Espanha, e até pelo Canadá, na direção de uso medicinal e terapêutico de drogas como a heroína e a maconha. Há ainda, casos como a Inglaterra e o Canadá que aprovaram leis descriminalizando o porte de pequenas porções de maconha. Alguns destes países adotaram, como medida sanitária, as narcossalas (safe injection rooms), como uma forma de ter um local especial para o uso de drogas, sem o risco de contaminação. O ex-juiz cita como outro resultado negativo da guerra às drogas da Casa Branca, o êxodo de populações rurais de áreas de cultivo, que tiveram plantações erradicados ou fumigadas indiscriminadamente. Este êxodo acabaria por acelerar o desmatamento de regiões de floresta amazônica, e no caso dos plantadores de papoula do Afeganistão, a migração de grandes contingentes de desempregados para outras modalidades criminosas.

Em 1992 Gustavo de Greiff assumiu a Procuradoria Geral da Colômbia, e teve como um dos maiores feitos de sua administração a prisão de Pablo Escobar, e o desmantelamento do Cartel de Medellín. Virou herói. De Greiff, no entanto, contrariou os mandamentos anti-drogas da superpotência, e não desfrutou seu prestígio por muito tempo. Em 1994, em uma conferência sobre drogas em Baltimore, EUA, declarou-se a favor da legalização das drogas, dizendo que “a proibição é um desperdício de energia“. No mesmo ano o Procurador deixou o cargo e a Colômbia, e foi ser professor universitário no México.

Segundo a argentina Silvia Inchaurraga, secretária executiva da Rede Latino americana de redução de danos (RELARD), “legalizar as drogas não é legalizar as substâncias, é legalizar uma abordagem mais racional, efetiva, e humana dos problemas associados a elas e ao seu consumo. É uma alternativa à atual legalização de mentiras como a teoria da escalada (usar maconha leva a usar cocaína). A legalização é uma alternativa aos danos da proibição: contaminação de Aids pelo uso de seringa, violência policial, mercado clandestino, adulteração de substâncias e sobredoses.”

O atual Secretário Nacional Anti-drogas, General Paulo Roberto Uchoa diz que o debate da descriminalização ou legalização ainda não chegou à SENAD, “mas vai chegar, e vamos discuti-lo, com isenção, espírito aberto, ouvindo todos os segmentos da sociedade. O Governo e a SENAD vão defender a posição que a sociedade adotar.”

O psiquiatra, professor, doutor, e pesquisador da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP, Ronaldo Laranjeira, por outro lado recomenda cautela na discussão da descriminalização do porte ou da legalização, levando em conta princípios de saúde pública. Ele alerta que toda política em relação a qualquer substância danosa à saúde, lícita ou ilícita, deve priorizar a redução do consumo total, e que uma eventual liberação faria aumentar o consumo devido à oferta maior e mais aberta. O pesquisador cita, ainda, o exemplo da Lei seca nos EUA nos anos 1920, que logrou diminuir drasticamente o consumo de bebidas alcoólicas naquele País, mas por outro lado, fez crescer o crime organizado, o contrabando e a lavagem de dinheiro, bem como constatou-se um número elevado de casos de intoxicação por ingestão de bebidas de procedência e qualidade duvidosas. Laranjeira defende que não há qualquer indicação de que a liberação total ou parcial das drogas seja benéfica para a sociedade, mas afirma que caso seja adotada, nunca deve acontecer desacompanhada de uma política de tratamento, desincentivo ao uso e redução de danos.

Em certos países onde a discussão está mais adiantada, já surgem questões como se em caso de liberação, o cultivo, produção e distribuição seriam terceirizados, sob concessão e fiscalização estatal, ou operados diretamente pela iniciativa privada, seguindo moldes já aplicados ao tabaco e ao álcool.

O certo é que a questão é altamente polêmica e sua discussão apenas engatinha. É notório também que o assunto envolve fortes paixões, às vezes por experiências pessoais ou próximas, outras por convicções religiosas ou morais, a exemplo de outros como transgênicos, aborto, células tronco, clonagem, etc. O que não dá para negar, no entanto, é que o modelo atual está desgastado e desacreditado. A sociedade de nossos dias não conseguirá evitar por muito mais tempo encarar estes questionamentos, racionalmente, sem paixões e sem precipitações. Nós policiais, mais do que qualquer cidadão, deveríamos remover os véus que envolvem o tema, e nos perguntar seriamente até quando vai se sustentar este modelo, em que a polícia finge que previne e reprime o tráfico, o judiciário finge que faz justiça, e todos vamos pra casa com a sensação do dever cumprido.

Ficarei realizado se após este artigo me deparar com colegas, que entre uma apreensão e outra, se detenham para se perguntarem se estão fazendo tudo que deveriam a respeito das drogas. Terei atingido meu objetivo se estas considerações suscitarem reflexões e questionamentos que contribuam para o debate. Os policiais federais têm entre suas atribuições, por força de norma constitucional (Art 144 §1º Inciso II), o combate ao tráfico de entorpecentes. Por que então não liderar, ou ao menos ter uma postura pró-ativa que contribua para repensar um tema de importância tão capital para a sociedade, sociedade esta para cuja segurança a Polícia Federal existe.

Francisco Ribeiro Tavares é Agente de Polícia Federal, de Primeira Classe, lotado na Superintendência Regional do DPF no Toncantis.

Fonte: [ Federação Nacional dos Policiais Federais ]

RNA também influencia hereditariedade, diz estudo

O DNA enovelado nos cromossomos que que recebemos de nossos pais é responsável por todas as nossas características, certo? Nem sempre. Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Nice, na França, publica hoje (26/05/2006) uma descoberta que pode mandar Gregor Mendel e suas ervilhas às favas e que deve demandar retoques nos livros escolares de biologia.

O estudo com camundongos, liderado por Minoo Rassoulzadegan e publicado na revista “Nature”, constatou que um traço físico dos roedores foi transmitido para seus filhotes pelo RNA (ácido ribonocléico), e não pelo DNA do genoma.

Ao cruzar roedores com cauda branca (e, portanto, com um gene responsável pela expressão dessa característica), com animais de coloração comum, os cientistas viram, espantados, que a maioria dos filhotes nasceu com a cauda branca, mas sem esse gene.

O resultado se repetiu nas gerações seguintes.”É como se os indivíduos nascessem apenas com a “lembrança” do gene”, afirma Paul Soloway, da Universidade de Cornell, em Nova York, que comentou o estudo na “Nature”.

Essa “lembrança genética” é conhecida como paramutação, fenômeno identificado há 50 anos em plantas como milho, petúnia e boca-de-leão, e em que as “ordens” inscritas em um gene são transmitidas para a próxima geração, mesmo na sua ausência.

Mas, se o gene estava ausente, quem estava fazendo o seu papel? Ao analisarem os espermatozóides e os óvulos dos roedores com cauda branca, os cientistas detectaram uma quantidade inesperada de RNA mensageiro –responsável pela transcrição do DNA.

Para testar se a mudança na aparência dos animais vinha mesmo daí, eles injetaram pequenas moléculas de RNA encontradas nos espermatozóides em um embrião de camundongo com genes normais. Resultado: metade dos filhotes nasceu com cauda branca, apesar de possuírem genes normais. Como o RNA faz isso ainda é um mistério.

A outra hereditariedade

“O trabalho revela mecanismos independentes do DNA que podem alterar as características do indivíduo, de maneira dominante, e por várias gerações”, afirma Marie Ann Vansluys, professora do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da USP (Universidade de São Paulo).

Ela explica que, se o RNA realmente regula outros modos não-genéticos de hereditariedade, também pode ser responsável pelo controle de características metabólicas ou até mesmo comportamentais. “Poderemos entender, por exemplo, por que alguém é mais ou menos agressivo.”

Soloway, de Cornell, destaca a importância do estudo para o combate a doenças como o diabetes. Cientistas já demonstraram que os espermatozóides humanos carregam RNA durante a fertilização, mas estudos ainda devem determinar se o RNA tem algum efeito.

“Em um estudo sobre um gene humano de predisposição a diabetes do tipo 1, um gene, mesmo não sendo transmitido pelo pai do indivíduo, anulou o desenvolvimento da doença no filho”, explica Soloway.

Vansluys é mais realista: “O estudo ainda é muito incipiente, mas talvez seja possível modificar o padrão de expressão dos genes que determinam o aparecimento de uma doença.”

fonte: [ MS Notícias ]