Hoje vieram aqui no portão Seu Francisco e dois pastores pretos. Sol quente, eles de terno e gravata. Era nítido que aqueles paletós não eram deles — estavam grandes demais, folgados, voando com o vento como se nem tivessem sido vestidos por vontade própria. “Talvez trajes doados ou emprestados por alguém que prefere ficar na sombra”, cogitei. Pra mim pareciam farda de um exército de pretensos “salvadores” que nunca plantaram um feijão.
Vieram perguntar como eu estava — e ficaram visivelmente desconcertados com minha resposta:
— Estou cada vez melhor!
Certamente não esperavam ouvir isso de alguém que, segundo a lógica deles, deveria estar fraco, vulnerável, em busca de consolo espiritual. Seu Francisco e sua patota vinham disfarçados de piedade e caridade mas o objetivo era claro: fisgar algum otário em desespero. Queriam entrar e fazer uma oração por minha “recuperação”, tal como urubus sobrevoando algum animal moribundo.
— Aqui só entra quem deixa a Bíblia e as crenças em casa, e vem é ajudar a capinar, a plantar… — respondi, direto como enxadada em cupinzeiro.
Seu Francisco sorriu amarelo. Tentou insistir:
— Mas…
Cortei no meio da palavra. Se deixar eles começam a proferir parábolas, testemunhos, apelos emocionais. Um discurso infinito e construído para anestesiar e prender em vez de libertar. Comecei a me afastar do portão, em despedida, e por ausa do vento forte gritei:
— A pior escravidão que existe é a escravidão mental.
Ficaram parados por alguns segundos, como se esperassem que eu abrisse uma brecha. Não abri. Vampiro só entra se você convida. E eu já aprendi a manter alho na soleira — ou no meu caso, um não que não tem nem espaço pra discussão. É “não” e acabou o papo.
Agora, sentado no banco da varanda, fiquei pensando nisso tudo. Em como se aproveitam da dor alheia, da doença, do medo da morte — para pregar. Mas não é um pregar que cura. É um pregar que prende. Prego que sela a tampa do caixão da autonomia.
Eles chamam de fé, mas pra mim parece parasitismo. Sugam a energia, a dúvida, a carência — e quando você vê, está repetindo palavras que nunca nasceram na sua boca, carregando culpas que nunca foram suas, vivendo uma vida que nunca te perguntaram se queria.
Aqui não. Aqui quem entra é pra ajudar a plantar mandioca, tirar mato do canteiro, juntar esterco seco pro adubo. Aqui se cura o corpo inteiro — e sempre com a mente livre.
Talvez eu ainda escreva mais sobre isso. Percebo que o mundo precisa cada vez mais de gente falando sobre esse tipo de escravidão que ainda perdura até hoje. Mais de 2 mil anos de controle social.
Ou… talvez baste plantar mais árvores, mais sementes…
Porque toda vez que uma planta brota e cresce, torna-se prova viva de que dá para curar a terra com suor, cortes e calos, sem precisar de crenças.
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Anderson Porto, aquele que prefere viver a vida sem crenças e quando é necessário fazer afirmações, o faz quase sempre de forma ponderada e lastreada em fatos e dados.
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