🍲A Sopa de Pedra: Lições de Partilha e Abundância

Chegou um dia um viajante magrinho, suado de tanto caminhar no sol quente, lá na porteira do sítio da Dona Rita. Ele bateu palma e perguntou:

— Boa tarde, sinhora… será que a senhora teria um tantim de comida pra matar a fome? Um pedacim de pão já tá bão!

Dona Rita coçou a cabeça e disse:

— Ô moço… hoje num tem nada não. Só restô água do feijão de onte.

O moço olhou em volta, viu um monte de galinha ciscando, milho secando no terreiro, abóbora amontoada num canto. Sorriu de ladin:

— Num tem problema, não, dona. Eu sei fazê uma sopa de pedra que é bão demais da conta. Só preciso dum panelão com água e duma pedra bem lavadinha. A senhora consegue me arrumar?

Ela ficou intrigada. Foi lá dentro e buscou uma panela com água. Pegou uma pedra do quintal, lavou e trouxe pra ele. Ele foi andando com cuidado pra não espirrar água, carregando o panelão, parou num terreno baldio perto da encruzilhada, catou uns pedaços de madeira, juntou pedras pra dar apoio pra panela e botou no fogo. Logo passou o Seu Zé, vizinho, e perguntou:

— Que qui tá cozinhando aí, cumpadi?

— Uma sopa de pedra que é de lamber os beiço. Só faltava um salzinho, mas com ou sem ele, fica bão de qualquer jeito…

Seu Zé coçou a barba, pensou “Sopa de pedra? Como assim?”. Ele riu e disse:

— Ah… eu tenho um sal guardado lá em casa. Péra que vô buscá.

Trouxe o sal. O moço tacou na água começando a ferver. E os vizinhos foram chegando no portão, tudo esticando o pescoço pra olhar. Passou o Tião, que fungou o cheirinho no ar e disse:

— Danado, isso tá cheirando é bom! Vocês vão fazer um cozido? Se botá um pedacim de abóbora aí, então, fica bão dimais.

Foi lá e trouxe folhas de abóbora, brotos e um pedaço de abóbora moranga, descascada! Logo a Dona Rosa apareceu com cheiro-verde, a esposa de Chico, Dona Maria, trouxe um punhado de feijão branco; Chico adorou a ideia e jogou uns pedaços de carne de sol. Alguém arrumou mandioca manteiga. E a sopa fervia, exalando aquele aroma que dava gosto.

Quando ficou pronta todo mundo se sentou em roda com cuia na mão, cada um pegando um pouco com a concha. O primeiro gole foi quente que parecia em brasa! Tião, de olhos marejados de felicidade, falou:

— Ocês num tão entendendo… isso aqui tá bão demais! Melhor que comida de festa!

Dona Rita deu um risadinha:

— É… nunca pensei que pedra desse sopa tão boa!

O viajante sorriu, coçou o queixo e disse, com aquele jeito maroto:

— Pois num é… ? A pedra sozinha na água num faz nada, mas junta com um cadim do que cada um tem de bão, faz comida pra encher barriga e o coração!

E naquela tardinha, entre risadas e papos divertidos, todo mundo descobriu que fartura num vem da pedra, mas de juntar e partilhar o que a gente tem guardado, mesmo sendo só um cadim!

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Anderson Porto, adaptando um conto que ouvi há muito, na minha infância, para a realidade da vida rural, que ainda é generosa e abundante, bem diferente da vida egoísta das cidades!


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Autor: Anderson Porto

Desenvolvedor do projeto Tudo Sobre Plantas

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