Noutro dia, sentado aqui no sítio, entre um espasmo de dor na coluna e outro, me peguei pensando na quantidade de pessoas que conheci nos últimos tempos e que, de alguma forma, estavam no espectro do autismo. Não é raro que me digam: “Fulano também é”, “Minha filha recebeu o diagnóstico”, “Eu me descobri depois dos 30”… E de repente, parece que a vida virou uma espécie de reunião de condomínio do espectro autista — cada um no seu apartamento sensorial, tentando se comunicar pela sacada.
E eu daqui, observando o que dá, entre maracujás maduros, pássaros voando e galinhas cacarejando, matutando: tem algo em comum nesse pessoal todo! Uma dificuldade para gostar de si mesm0 sem culpa. Como se autoestima fosse sinônimo de arrogância. Como se dizer “eu me gosto” soasse como “eu sou melhor que você”. Não é.
Autoestima, na real, é poder olhar para dentro e dizer: “É… mesmo com essas diferenças, esses supostos bugs do sistema nervoso, ainda sou uma versão única”. E tá tudo bem se você nem sempre estiver rodando no modo otimizado.
Tenho visto pessoas incríveis, sensíveis, criativas, brilhantes mesmo, se diminuindo por não corresponderem a um “manual de instruções oficial de como tem que ser uma pessoa dita normal” que foi supostamente criado por quem controla as sociedades. E aí os autistas tentam simular autoaceitação como quem ensaia um sorriso para uma selfie: forçado, meio desfocado e com filtro. Mas, no fundo, tudo que a gente quer — autista ou não — é poder ser sem ter que pedir desculpas.
E tem a ansiedade, claro. Companheira de muitos. Tem gente que gosta tanto de saber o final que assiste até spoiler de reprise de novela. O grande problema é viver no mundo real tal como tentar fazer trilha com uma bússola quebrada, sem GPS e um mapa de 1993. Ninguém quer se perder.
Mas calma… Vai ficar tudo bem. De verdade.
Você não precisa se adaptar a ponto de se anular. Também não precisa virar o mascote da superação. Só precisa aprender, aos poucos, a ser gentil consigo mesmo. A gostar de si mesmo sem precisar do “like” dos outros. A rir dos próprios tropeços (quando eles não envolvem calçadas esburacadas, claro). E a entender que até as árvores mais tortas têm seu lugar no pomar.
Então se você é autista — ou desconfia que seja —, saiba: não está sozinho. Tem muita gente como você, cada qual com sua intensidade, com seu silêncio barulhento, com suas rotinas queridas, com seus jeitos únicos de sentir a vida.
Vai ficar tudo bem. O mundo está em mudança — e os autistas fazem parte dessa mudança.

E acredite: o mundo precisa de gente como eu, tu, ele, ela, você. De verdade. Com todas as perguntas, brilhos, desconfortos e capacidade incrível de ser quem se é.
Agora… Respira!
Se quiser pode até dar uma risadinha.
E segue firme.
No seu tempo.
… No seu jeito.
Com – ou sem – spoilers.
😉
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Anderson Porto, ímã vivo de cachorros, bêbados e autistas, que acabou virando ermitão do/no meio do mato.
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