Na roça as manhãs não começam apenas com o sol que rasga a névoa, ou com cheiro de terra úmida. Muitas vezes elas se abrem em pequenas conversas descompromissadas, de portão em portão. Foi assim que tudo começou: algumas colheres de sopa de café, oferecidas como quem dá um abraço disfarçado, evitaram que eu me arriscasse pedalando até o mercado. O gesto foi simples mas profundamente humano.
No dia seguinte retribuí como quem colhe gratidão: uma sacola cheia de maracujás maduros, nascidos do chão que cultivo. E a vida, como bem sabe fazer, respondeu com mais uma dádiva: uma bengala. Presente inesperado entregue com o carinho de quem observa e compreende. Não foi pena, nem compaixão. Foi cuidado.

A bengala chegou como uma continuação da conversa. De um lado, a fruta. Do outro, o apoio. E entre os dois, uma vizinhança que não se mede em metros quadrados ou passos, mas em gestos e atitudes.
É nesse tecido de relações que a vida rural é apoiada em sua forma mais viva. Não se trata apenas de plantar e colher, mas de partilhar. O portão, muitas vezes símbolo de divisão, aqui vira ponto de encontro, de escuta, de presença.
Hoje caminhei com mais firmeza. Não apenas pela ajuda física da bengala, mas pela certeza de que há vínculos reais sendo estabelecidos aqui e acolá. A vida rural tem disso: ela nasce do chão, floresce nas relações. A troca não é moeda, é afeto. E o portão da frente, que muitos fecham, por aqui permanece aberto — tais quais os caminhos, os olhos, o coração.
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Anderson Porto, aprendiz de mago, caminhante no estilo ponto e vírgula, às vezes coletor de maracujás.
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que lindeza de olhar. Vida longa aos portões que promovem encontros.
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