Com o problema na coluna tenho passado mais tempo nas redes sociais, ou mesmo pesquisando na Internet. Como analista de sistemas observo mudanças, padrões, manipulações… Hoje me chamou novamente a atenção a falta, a ausência, a limitação de emoções. Explico!

Nas redes sociais, o que se vê é uma paleta reduzida de reações humanas. Um clique e pronto: curtiu. Ou, com um pouco mais de “liberdade”, um coração, uma risada, uma lágrima, uma cara de bravo. Emoções padronizadas. Limitadas. Domesticadas.
A vastidão do sentir humano foi reduzida a sete figurinhas coloridas que saltam na tela. Como se todo o nosso afeto, indignação, compaixão ou dúvida pudesse caber num emoji animado. Como se o amor fosse sempre “curtível”, o luto sempre “tristinho”, e a raiva um tanto “engraçadinha”.
O que não se encaixa nessa grade de reações é silenciado. A dor complexa, o espanto verdadeiro, a beleza inclassificável – ficam sem botão. E então, talvez sem perceber, vamos perdendo o vocabulário do sentir. O mundo interior se curva ao cardápio de emoções prontas para uso. Sentimos como se consome: rápido, raso e registrável por um clique.
Aquilo que não gera cliques ou respostas calculáveis simplesmente desaparece da vitrine.
E o mais sutil: essa limitação não é apenas técnica, mas política. As plataformas determinam não só como nos expressamos, mas o que será visto. Emoções que geram mais engajamento são promovidas – muitas vezes as mais extremas, as mais viscerais. E assim o medo, o ódio e a raiva ganham destaque. A plataforma não apenas limita as formas de expressão, como também manipula quais sentimentos circularão com mais força, não em nome da verdade ou do afeto, mas do tempo de tela e da receita publicitária.
Essas ferramentas não foram feitas para sustentar a profundidade do humano. Elas funcionam como vitrines de afeto programado. São rápidas, intuitivas, mas também limitantes. E, quando repetidas diariamente, vão silenciosamente educando nossas emoções — e, pior, a forma como percebemos as emoções dos outros.
A vida real é muito mais plural, vasta e por vezes conflitante. Uma miríade de emoções várias expressando as nuances da complexidade humana.
E talvez – apenas talvez – por isso mesmo, muito mais valiosa.
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Anderson Porto, gestor do projeto Tudo Sobre Plantas e utilizador de redes sociais como ferramenta para a Educação.
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