Ontem, a vida no campo me ensinou mais uma vez.
Uma lição que não veio dos livros, nem das palavras dos homens, mas do instinto de um cão e do silêncio de uma galinha velha.
Ela já não botava ovos. Caminhava devagar, penas ralas, olhar cansado.
Era a mais antiga do galinheiro — talvez a mais esquecida.
E foi ela que o cachorro escolheu para almoçar.
No primeiro instante, fui tomado pela raiva.
Raiva do cão, que até então era companheiro fiel e protetor das galinhas.
Raiva do mundo, por não seguir o roteiro que eu tinha escrito em minha cabeça.
Raiva por não poder proteger o que ainda insisto em chamar de meu.
Depois da situação a galinha se enfiou no meio do mato e ele fugiu.
Então parei.
Olhei de novo.
E vi diferente.
O que estava acontecendo ali, de verdade?
O cão não estava sendo cruel. Não existe maldade nos seres que atuam na Natureza.
E veio a certeza!
Estava o cachorro apenas cumprindo um papel num sistema mais antigo que qualquer cerca que levantei.
Ele não atacou por maldade — apenas respondeu ao chamado da ordem natural, aquela que não se explica, mas se sente.
A galinha, já no fim de seu ciclo, talvez já soubesse.
Decidiu lutar, gritou, bateu asas, correu e se enfiou no capim que deixei crescer.
Agora estão os dois deitados lado a lado.
O cão, em paz.
A galinha, pegando sol e respirando devagar.
E eu, aqui, sentado, aprendendo a deixar de ser senhor de tudo.
A natureza não pede licença para ensinar.
Ela vem com suas garras e suas carícias.
Nos mostra que tudo se move, tudo morre, tudo renasce.
Que há beleza na entrega.
E que o controle é uma ilusão que só nos afasta do que é vivo.
Hoje, não sou mais o dono das galinhas.
Sou apenas alguém que aprende a cada passo com o que vive aqui.
E sigo…
observando,
escutando,
desaprendendo para, enfim, viver.
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Anderson Porto, agricultor de capim, observador, amigo das galinhas e dos cachorros.

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