Você consome drogas?

Gilton Lobo – Jornalista

Provavelmente você vai estufar o peito e negar ostensivamente: “Não. Eu não consumo drogas”. Talvez ainda vai olhar de maneira intransigente para o interpelador que colocar tal indagação e tomá-la como uma ofensa pessoal. Quem sabe, de bom humor esteja, você vai ser mais brando: “Não, meu caro, eu não consumo drogas. Gosto de uma cervejinha ou de um uísque para me divertir. E isso, somente no fim e semana. Nos outros dias não passo de alguns cafezinhos”.

Caros amigos, adeptos dos cafezinhos diários e das bebidas alcoólicas, lamento lhes informar o que muita gente já sabe: vocês são consumidores de drogas. E não adianta se espernear, trazer o contra-argumento de nunca ter consumido maconha, cocaína, heroína, ou qualquer outra droga ilícita, no intuito de fazer parte do grupo imaculado dos puritanos que nunca se drogaram. No bem melhor, você será considerado um indivíduo que não é transgressor dos regulamentos legais e não se fez um contraventor. Que bom, um mal a menos.

Porém, é bom saber que estudos comparativos entre as drogas consideradas lícitas, em relação às ilícitas, apontam para as realidades fisiológica e social que não permitem nenhum atenuante ao consumidor de bebidas alcoólicas ou tabagistas, por exemplo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ameaça motivada por drogas lícitas é muito maior do que a gerada pelas ilícitas. Os dados ainda revelam que a dependência de álcool e cigarros tem um custo muito maior para a sociedade do que de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O relatório “Neurociência do Uso e Dependência de Substâncias Psicoativas” mostra que a dependência de drogas é um problema que vem se aviltando assustadoramente, especialmente em países pobres que têm crescentes taxas de consumo de álcool e de fumo. Pela contabilidade da pesquisa, existem cerca de 200 milhões de usuários de drogas ilícitas em todo o mundo, o que corresponde a 3,4% da população. Esse número responde por 0,8% das mazelas de saúde em todo o mundo, enquanto que o álcool e o cigarro são responsáveis por 4,1% e 4% desses problemas, respectivamente.

Estudo publicado na revista “The Lancet”, especializada em medicina, na sua publicação de março de 2007 coloca o álcool como uma droga mais perigosa do que maconha, LSD e ecstasy. Segundo médicos da Universidade de Bristol, o líquido pode provocar alto grau de dependência, ficando em quinto lugar num ranking formado pelo conjunto de 20 substâncias psicotrópicas. O tabaco ficou em nono, à frente de Buprenorfina, um derivado do ópio.

A desmedida relevância que é dada ao uso de certas drogas lícitas é por demais cultural. Imagine que ao ligar a TV você se deparasse com um comercial de maconha, no qual mulheres bonitas desfilam na praia dando um traguinho. Imagine uma festa familiar em sua casa, na qual são servidas cigarrilhas de cannabis sativa, e você, orgulhoso, comenta com os convidados que “o produto é de primeira, importada diretamente da Bolívia”. Estranho? E por que não é estranho que os bares estejam lotados de consumidores de bebidas alcoólicas, consumidores de uma droga considerada, segundo estudos científicos, mais perigosa, agressiva e viciadora do que a maconha? Se alguém lhe revelasse que consome maconha socialmente, qual seria a sua avaliação?

Somente no Brasil, pelos dados da OMS, é estimado o número de 17 milhões de dependentes do consumo de álcool. No resto do mundo essa realidade não é diferente. As campanhas contra o consumo de bebidas alcoólicas são ínfimas se comparadas com as que investem contra as drogas ilícitas. Os Estados Unidos gastam, todos os anos, milhões de dólares em ações inibidoras do tráfico de drogas ilícitas. Esse tipo de crime culmina em um grande desvio de divisas daquele país para regiões pobres da América Latina. Porém, quase nada se fala sobre a realidade que representa o uso de anfetaminas. O Brasil é um dos maiores importadores dessa droga, que é vendida legalmente em farmácias e consumida indiscriminadamente na forma de comprimidos ou cápsulas. Essa problemática passa incólume aos olhos do “combatente” Governo norte-americano. Não é difícil adivinhar qual país lucra com o comércio internacional de anfetaminas.

A ausência de informação dá espaço para que surjam manifestações a favor da liberação das drogas ilícitas. Em maio deste ano, em diversas cidades no mundo inteiro, manifestantes fizeram passeatas, inclusive no Rio de Janeiro, quando carregaram um polêmico panfleto que trazia a silhueta do Cristo Redentor como forma de representar a versão carioca da manifestação.

Porém, os argumentos dos que querem a liberação da maconha passa pelo campo do absurdo. Entre eles: ‘a maconha vai ser usada para fins medicinais’ e ‘vai diminuir a violência no país’. Não somos a Holanda. Não conseguimos ainda educar a população nem para que saiba utilizar uma faixa de pedestre. Somos recordistas em acidentes de trânsito provocados pela ingestão de bebidas alcoólicas. Não precisamos de mais ópio. Já estamos bastante drogados pelas mais nocivas de todas as drogas: a ignorância e o preconceito.

Fonte: [ CINFORM ONLINE ]


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Autor: Anderson Porto

Desenvolvedor do projeto Tudo Sobre Plantas

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