Victor José Mendes Cardoso (*)
La Insignia. Brasil, agosto de 2006.
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Como seria praticável um sistema de caminhos, como o Peabiru, que atravessava regiões ocupadas – segundo fontes históricas – por tribos indígenas portadoras de culturas diversas, desde muito antes da chegada dos europeus? 7 . Ou então: por que indígenas diferenciados em suas culturas iriam construir uma estrada unindo povos tão distintos? Esse poderia ser um argumento a favor da pré-existência do caminho, antes mesmo do estabelecimento das tribos. Os antigos habitantes do Peru (os “incas”) teriam o costume de depositar, ao longo das estradas, pedras em homenagem aos manes de seus antepassados, o que acarretava o surgimento de vários montículos de pedrinhas ao lado dessas estradas 8 . […]
Peabiru e as plantas
Um outro elemento, este de natureza botânica, também poderia servir de apoio à hipótese da origem incaica do Peabiru. Ernani Donato refere-se a uma hipótese segundo a qual as estradas incas eram semeadas com certas gramíneas selecionadas que impediam o surgimento de outras plantas 5 . Assim, em certos trechos, o Peabiru seria forrado por uma cobertura vegetal implantada, atividade essa que, em tese, fugiria das concepções e costumes dos índios que habitavam o território brasileiro à época do descobrimento. Sobre essa cobertura vegetal, os relatos falam de uma “erva miúda” que crescia até cerca de 0,70 m de altura e, mesmo que se queimassem os campos, ela sempre brotava novamente. […]
Assim, o texto de Ramon Cardoso – que se refere ao Peabiru como “caminho dos guaranis” – informa que os índios abriam picadas e nela semeavam gramíneas que formavam um “tapete verde” por sobre a trilha, impedindo inclusive a germinação de outras espécies (efeito alelopático?). Uma característica importante dessas gramíneas seria a presença de diásporos que grudavam nos pés e pernas dos passantes, o que asseguraria sua dispersão ao longo do caminho. Luis Galdino, referindo-se a um possível trecho do Peabiru na região de Pitanga (PR), descreve-o como uma valeta “forrada com um certo tipo de gramínea nativa, conhecida na região pelo nome de ‘puxa-tripa'” 4 .
A partir da sugestão de que essa planta pudesse ser a “yerba mui menuda” à qual se referiam os jesuítas em seus relatos sobre o Peabiru, fomos a Pitanga e, com a inestimável orientação do Sr. Clemente Gaioski – funcionário aposentado do IBGE e pesquisador do Peabiru – coletamos algumas amostras desse capim vegetando em propriedades na zona rural do município. Quando as plantas foram identificadas, constatou-se a presença de duas espécies: Homolepis glutinosa (Sw.) Zuloaga & Soderstr. e Panicum pilosum Sw. A primeira espécie, H. Glutinosa, apresentava unidades de dispersão pegajosas, que aderiam à pele. Aliás, o nome vulgar da planta “puxa-tripa” derivaria do fato do que seus diásporos aderiam ao pé ou à pata de um animal, e este, ao deslocar-se, levava consigo também partes da inflorescência e a própria raquis, que seriam então arrastadas como se fosse uma longa “tripa”. Quanto à segunda espécie, P. Pilosum, essa característica pegajosa não nos pareceu evidente, embora isso provavelmente possa variar dependendo do estágio de maturação dos frutos.
Seriam essas as espécies assinaladas pelos cronistas do Peabiru? Em caso negativo, quais seriam as espécies? Quanto a H. Glutinosa, de acordo com a “Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo”, trata-se de uma planta perene, decumbente (ramos prostrados), radicante (capacidade dos ramos de emitirem raízes adventícias), com altura variando de 0,6 m a 2 m, ocasionalmente estolonífera, distribuída desde o México até a Argentina, ocorrendo em campos, restingas e borda de florestas. P. Pilosum, por sua vez, é descrita como perene, sem rizomas, estolonífera, às vezes decumbente, radicante nos nós inferiores, medindo de 0,2 m a 0,85 m, distribuindo-se da América Central à Argentina, vegetando em locais sombreados de beira e interior de florestas, menos comum em campo aberto, preferindo solos úmidos 11 .
Homolepis glutinosa, pelas características descritas, é uma planta que merece estudo mais aprofundado, especialmente pelas propriedades “adesivas” de suas unidades de dispersão, o que a tornaria uma candidata em potencial ao rol das espécies possivelmente usadas pelos guaranis como revestimento dos caminhos que cortavam suas terras. Todavia, sua eventual preferência – diferentemente de P. Pilosum – por lugares abertos, como campos e bordas de florestas, poderia eventualmente comprometer a propagação da espécie em trechos onde o Peabiru cortasse florestas fechadas. Vale lembrar que, como mencionado anteriormente, não foi encontrado nenhum tipo de revestimento digno de destaque, nos vestígios de velhas trilhas indígenas preservadas em meio à floresta.
Seria possível associar o traçado original do Peabiru à cobertura vegetal hodierna? Um cuidadoso trabalho de coleta e levantamento da flora poderia eventualmente contribuir para a resposta a essa questão. O pesquisador José Francisco M. Valls, da EMBRAPA/CENARGEN, destaca a importância do estudo, sob o enfoque arqueológico, da ação humana no transporte de sementes e mudas. No caso de espécies do gênero Arachis (amendoim), diversas populações tem sido coletadas vegetando próximo a sítios arqueológicos, como é ocaso de A. Stenospermae, que ocorre junto a ruínas do século 16, no município de Peruíbe (SP) 12 . De acordo com o autor, “pareceria apropriado investigar-se as associações desta espécie, disjunta no Mato Grosso e Litoral, com o traçado do lendário caminho Peabiru…”.
Na “Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo”, notou-se que os locais indicados de coleta de espécimes de Homolepis glutinosa – Cachoeira Paulista, Cananéia, Iguape, Itararé, Paraguaçu Paulista, São Carlos e São Paulo – acompanham em geral o suposto traçado do Peabiru ou de outras rotas indígenas, como a antiga trilha dos Guaná, que se transformaria no Caminho Velho do Ouro 4 . Seria isso uma mera coincidência? Independentemente da resposta, acreditamos que a Botânica possa ser um instrumento a mais no sentido de se esclarecer pontos obscuros da história da ocupação e conquista do território brasileiro pelos povos que aqui habitaram e habitam.
Notas
(*) Professor adjunto victorjc@rc.unesp.br, Departamento de Botânica, Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Rio Claro, SP).
Para ler o texto completo: [ La insígnia – Ecología ]
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