Ligado à arquitetura de Oscar Niemeyer, o paisagista Burle Marx descobriu a flora brasileira, criou novas linguagem e influenciou o mundo
[img:719655_not_fot.jpg,full,alinhar_esq_caixa]”Burle Marx é o cara que inventou o Brasil, em termos de espaços livres, espaços verdes, parques. O trabalho paisagístico dele influenciou internacionalmente. Ele criou novas linguagens, ele alcançou o mundo. E descobrtiu a flora brasileira”, explica o arquiteto Ricardo Bezerra. O legado de Burle Marx está ligado à arquitetura moderna de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. São dele os jardins do Itamaraty, em Brasília, o Parque da Pampulha, em Minas, o jardim interno da sede da Unesco, em Paris (todas obras dos anos 60). O dedo verde de Burle Marx está ainda no Largo da Carioca, na orla do Leme, no canteiro central e calçadão de Copacabana, nos jardins suspensos do Outeiro da Glória, no Parque do Flamengo – todos no Rio, a cidade em que este paulista viveu a vida toda e onde deixou a maior parte do seu legado.
“Ele era um paisagista que era artista ou era um artista também paisagista?”, pergunta, brincando, Ricardo Bezerra, para responder, ele próprio: “Burle Marx mantinha os dois lados em alto nível. Era o único profissional capaz de fazer um paisagismo completo, incluindo esculturas, painéis, mobiliário. E foi uma pessoa humana de uma exuberância total. O sítio Santo Antônio da Bica, que ele doou ao governo, mostra o desprendimento dele. O quarto em que ele dormia, modesto, simples, quase monástico. Mas a casa, cheia de arte popular, arte contemporânea, esculturas barrocas, troncos petrificados. Além da coleção de plantas”. O sítio, em Barra de Guaratiba, no Rio, é administrado pelo Iphan.
Amor à flora nativa, mas sem preconceito, como explica Ricardo Bezerra. “Ele não tinha nenhum xenofobismo. Viajou o Brasil e o mundo. Juntava plantas que dialogassem entre si. Descobriu novas espécies e mesmo gêneros novos de plantas”, diz. Burle Marx catalogou 46 novas plantas e algumas delas levam seu nome, a exemplo da Calathea burle-marxii, precedente de Cáceres, Mato Grosso do Sul. ou a Orthophytum burle-marxii, originária da Bahia e cultivada no sítio Santo Antônio da Bica (hoje em dia, sítio Burle Marx, um centro de pesquisa botânica e espaço de arte). Um dos mais belos espécimes amazônicos, árvore de grande porte conhecida como abricó-de-macaco, pode ser encontrada em todo o país, “plantada” por Burle Marx. Em Fortaleza, elas embelezam a praça da Imprensa, na Antônio Sales, e a avenida Jovita Feitosa – próximo à igreja Redonda. Mas também foi ele o responsável pela introdução do minilacre no Brasil, esta touceira tão em moda, em tudo que é condomínio. “Ninguém é perfeito”, brinca Bezerra.
“Burle Marx criava o desenho da vegetação, levava em conta a arquitetura das plantas, com muita liberdade de expressão”, pontua Ricardo Bezerra. Mas, aonde está o verde de Burle Marx em Fortaleza, além dos jardins do TJA? Bezerra enumera alguns pontos: a casa de Benedito Macedo, a de José Carlos Pontes e Denise, a residência de Pio Rodrigues, os jardins da Vicunha do Nordeste, em Maracanaú, a sede do BNB no Passaré, o Centro Empresarial Clóvis Rolim, a Receita Federal, e outros projetos “que a gente nem tem idéia”, diz ele, a exemplo das avenidas Aguanambi, Leste Oeste e José Bastos. “Nada foi plantado. Mas está listado nos arquivos do Escritório Burle Marx”.
Sobre o Laboratório da Paisagem, que reúne pesquisadores da UFC, Unifor e UFPe, a professora Fernanda Rocha diz que tudo começou em Recife, “numa proposta da professora Ana Rita Sá Carneiro, responsável pelo restauro de três praças criadas por Roberto Burle Marx na cidade. Num encontro com ela, em junho, falamos do número de projetos dele aqui em Fortaleza. Daí veio a idéia de que nós concretizássemos uma rede. A idéia do Laboratório é fazer o levantamento dos trabalhos de Burle Marx aqui, para disponibilizar estas informações. Sem conhecimento, não há valorização”, sintetiza Fernanda Rocha, que conclui dizendo que o Laboratório da Paisagem também vai desenvolver atividades voltadas para o verde em Fortaleza, “que a gente considera muito carente. Nosso objetivo é pretensioso. Queremos semear a idéia de que a cidade precisa cuidar do seu verde”. Quem for ao TJA, além deste passeio ao jardim, da conferência e da exposição temática, ainda vai curtir o piano de Ricardo Bezerra (autor, em parceria com Fagner, da emblemática Manera, Fru Fru, Manera). (Eleuda de Carvalho)
SERVIÇO
Um Lugar Onde a Vida Acontece: os jardins do TJA e Roberto Burle Marx – neste sábado, a partir das 15h, com visita guiada pelos professores Ricardo Bezerra (UFC) e Fernanda Rocha (Unifor). Às 17h, no foyer, conferência Roberto Burle Marx e os jardins do Recife, com a professora Ana Rita Sá Carneiro (UFPe). Em seguida, lançamento do Laboratório da Paisagem (UFC, Unifor, UFPe), com mediação dos arquitetos Chico Veloso (Iphan) e Nícia Bormann. Às 20h, na galeria Ramos Cotôco, abertura da instalação ViVer o Verde da Cidade, ViVer o Verde na Cidade: esboços sobre vida e obra de Roberto Burle Marx a partir do jardim do TJA (em cartaz até 30 de setembro, com visitação gratuita de terça a sexta, de 8h às 17h, e sábados e domingos, de 13h às 17h). O TJA fica na praça José de Alencar, s/n – Centro. Inf.: 3101.2567 e 3101.2603.
E-mais
Infância
Roberto Burle Marx nasceu em São Paulo, no dia 4 de agosto de 1909, e morreu no Rio de Janeiro, em 4 de junho de 1994. O artista plástico, arquiteto, tapeceiro e, principalmente, paisagista foi o quarto filho de Cecília Burle (pernambucana) e de Wilhelm Marx, judeu-alemão, nascido em Stuttgart e criado em Trier (cidade natal de Karl Marx, primo de seu avô). O interesse de Roberto pelas plantas começa na infância, no jardim cultivado por sua mãe, repleto de rosas, begônias, antúrios, gladíolos, tinhorões e muitas outras espécies.
No Nordeste
Em 1928, a família passa uma temporada na Alemanha – onde Roberto se tratou de um problema nos olhos. Lá, teve contato com as vanguardas estéticas. Em uma visita ao jardim botânico de Berlim, encantou-se com uma estufa de plantas exóticas: era a flora brasileira. Na década de 30, ele viveu em Pernambuco. Foi diretor do Departamento de Parques e Jardins do Recife, tendo criado o paisagismo da praça do bairro de Casa Forte (que ele projetou em 1935, com espécimes da floresta amazônica), e da praça Euclides da Cunha, na Madalena, com plantas da caatinga.
Influências
Voltando a residir no Rio, em 1937, torna-se aluno do artista plástico Cândido Portinari e do poeta modernista, pensador e músico Mário de Andrade. Uma das paixões de Burle Marx era a música. Ele gostava de cantar árias de óperas para seus amigos. Em 1941, realiza a primeira individual de pintura. Expõe no Salão Nacional de Belas Artes, na década de 40, e participa da Bienal de Veneza, em 1950, 1970 e 1978, além de várias edições da Bienal Internacional de São Paulo.
Guaratiba
No final dos anos 40, Burle Marx compra o sítio Santo Antônio da Bica, em Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, uma antiga fazenda de café do século XVII. Restaurou a edificação e começou a trazer para lá sua formidável coleção de plantas, iniciada quando ele tinha seis anos de idade. Em 1973, mudou-se definitivamente do bairro de Laranjeiras para o sítio, onde viveu até sua morte, em 1994. Em 1985, ele doou a propriedade ao governo brasileiro (hoje, administrada pelo Iphan). Além do jardim botânico, o sítio – agora chamado Burle Marx – possui a inestimável coleção de arte que ele juntou por toda a vida. O restante de seus bens, Roberto Burle Marx doou aos seus funcionários.
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* 11/08/2007 02:11:42 – O jardim de Burle Marx
Fonte: [ Jornal O Povo ]
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