Chás podem prejudicar a saúde
Uso sem orientação de ervas fitoterápicas como boldo e ginko biloba podem ser a causa de doenças ‘escondidas’
Luiz Galano
Quem nunca recebeu – ou mesmo deu – a dica de um chá que é um santo remédio para determinada doença, que atire a primeira pedra. Tal ato está enraizado na cultura popular, principalmente nas cidades do Interior. O problema é que pouca gente sabe que essas tradições passadas de geração para geração podem causar e até mesmo agravar problemas de saúde, caso a substância seja utilizada de forma indiscriminada e sem acompanhamento especializado. As plantas são matéria prima para grande quantidade de remédios industrializados, por isso elas precisam ser encaradas como tal.
O aposentado Ary de Souza, 68 anos, é um exemplo de quem seguiu dois conselhos e acabou se dando mal. Há cinco anos, quanto passava por consulta no oftalmologista, o médico comentou os poderes da ginko biloba para problemas cardíacos (a planta é famosa pelo poder de “afinar o sangue). A partir daí, ele começou utilizar o produto e não parou mais. No entanto, há três anos, ele sofreu complicações e precisou ficar internado durante 34 dias. Na cama de hospital o cardiologista indicou outro “santo” remédio para afinar o sangue, o AAS.
Depois de receber alta, o aposentado achou que utilizando os dois produtos de forma conjunta, o efeito seria melhor. A partir de então ele passou a perceber que sua visão sempre ficava comprometida quando realizava algum trabalho que exigisse esforço físico. Até agosto deste ano, ele conviveu com essa situação, sem saber que era a combinação dos dois “remédios” que provocavam seu mal ocular.
Somente depois que Souza começou a freqüentar aulas ministradas por um grupo de 13 alunos de farmácia e química da Universidade do Sagrado Coração (USC) ele descobriu que estava se prejudicando. “A junção das duas substâncias potencializa os efeitos que eles causam no organismo. Minha circulação ficava mais acelerada e provocava pequenas hemorragias no meu globo ocular”, explica o aposentado, que hoje não sofre mais com problemas de visão.
De acordo com a professora Márcia Aparecida Zeferino, uma das orientadoras do grupo de alunos que ministra o curso para participantes da Universidade Aberta da Terceira Idade (Uati) da USC, esse é apenas um dos casos em que a utilização de substâncias sem acompanhamento especializado pode causar. “Em determinadas situações o efeito é potencializado e outras vezes é inibido. As duas opções podem ser benéficas ou maléficas”, afirma a pesquisadora, que indica os energéticos como substâncias mais perigosas, porque atingem diretamente o coração.
Suely de Souza, mulher de seu Ary, colocou seu coração em risco sem saber. Ela tomava medicamento para controlar os batimentos cardíacos, devido à uma arritmia. No entanto, em determinadas situações, ela fazia uso de pó de guaraná. “Notava que meu batimento acelerava bastante, mas nunca imaginei que era por causa da combinação das duas substâncias”, revela a aposentada, que também só descobriu o mal feito a si mesma depois de aprender mais sobre as plantas e seus efeitos.
De acordo com os estudantes do 3.º ano de farmácia da universidade Leandro Garcia e Priscila Sgavioli Zago, existem diversas regras na hora de escolher um chá, assim como no modo de preparo, acondicionamento e tempo de duração do tratamento. “O importante é que a compre sempre os produtos em locais autorizados e siga as instruções de maneira correta”, destacam.
Fonte: [ JCNet ]
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