Plantar árvores não deve amenizar a consciência

Alan Meguerditchian

[img:190607.jpg,full,alinhar_dir_caixa]”Em alguns casos, as práticas de responsabilidade ambiental encaixam-se no crime de estelionato. O marketing desperta a consciência e dissemina as boas práticas. O problema é que muitas vezes a ação anunciada não é efetiva, pois não se sabe exatamente se as árvores plantadas atingiram a idade adulta nem se estão de fato seqüestrando carbono da atmosfera”.

“Até 2006, a mídia mal falava sobre os problemas do aquecimento global. Após o relatório do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), começaram a publicar mensagens apocalípticas. Só com a expansão do nível de consciência poderemos resolver o problema de forma definitiva. Ao contrário, continuaremos transmitindo às pessoas que consumo consciente é consumir menos”.

As duras críticas sobre como o aquecimento é combatido e como ele é tratado pela mídia brasileira é do superintendente de desenvolvimento sustentável do Núcleo do Futuro, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Giovanni Barontini.

Segundo a avaliação, muito se fala sobre o efeito estufa, principalmente depois do relatório da ONU, mas de uma maneira que não colabora para a resolução do problema. “Temos como métrica, avaliar a poluição em relação ao seu impacto sobre a riqueza produzida. Devemos repensar isso. As empresas continuam emitindo gases de efeito estufa, com a única diferença que passaram a plantam árvores. Isso não faz nenhum sentido. É necessário haver esforços para alterar os padrões de conduta e de consumo e os níveis de poluição”, diz Barontini.

Nesse mesmo sentido segue o pensamento do ambientalista, Fábio Feldman. “O problema não se resume em plantar uma árvore e amenizar a consciência”, diz. O ex-deputado federal – autor de leis como a do rodízio de veículos na região metropolitana de São Paulo -, se refere a empresas que não mudam suas práticas, mas para aparecer bem socialmente, plantam árvores ou dizem que o fazem. “O ideal seria que as empresas estabelecessem metas e mostrassem à opinião pública os resultados”, completa.

O documento da ONU, citado pelo pesquisador, alertou para a necessidade de cortar as emissões anuais de dióxido de carbono entre 50% e 80%, até 2050, para que a temperatura da terra não ultrapasse um nível seguro. Para ordenar um pouco mais tal situação, foi lançado o Carbon Disclosure Project (projeto de informações sobre a emissão de gases de efeito estufa), que adota um questionário sobre a posição da empresa em relação às mudanças climáticas. “As empresas têm a opção de não responder ao questionário, mas, ao tomar essa decisão, elas demonstram que não dão importância para as questões relacionadas às mudanças climáticas”, diz Barontini. A iniciativa conta hoje com cerca de 300 investidores do mundo inteiro. No Brasil, o questionário é enviado para as 60 empresas com maior liquidez no mercado de capitais da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

Neste cenário, os especialistas concordam que o Brasil tem perdido espaço. “O país está perdendo protagonismo”, diz Feldman. E muito por causa da falta de ação do governo. “Estamos muito aquém”, diz o professor da Universidade de São Paulo (USP), Jacques Marcovitch.

Um exemplo é o documento que acaba de ser lançado pela Federação das Indústrias (Fiesp) e do Centro das Indústrias (Ciesp) do Estado de São Paulo. Segundo o acordo, o setor se compromete a adotar medidas de redução de emissões de CO2 e outros gases, a integrar programas de mobilização da sociedade e a investir em pesquisa e inovação tecnológica focada em campos como eficiência energética e fixação de carbono. Os cortes são voluntários e não estabelecem valores mínimos.

Apesar da iniciativa, Barontini diz que para o problema ser solucionado é necessário que as empresas passem a medir suas emissões que gás estufa. Só assim as metas poderão ser definidas. “Não é possível resolver questões de longo prazo, sem ações de curto”, diz. Além disso, os consumidores devem questionar quais as suas verdadeiras necessidades e com isso influenciar o mercado.


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Autor: Anderson Porto

Desenvolvedor do projeto Tudo Sobre Plantas

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