Produção agroflorestal tem êxito em pequenas propriedades no semi-árido do Ceará. Manejo explora de forma sustentável os recursos naturais da região e promove melhorias na qualidade de vida da população
Natalia Suzuki – Carta Maior*
CRATO, CEARÁ – Uma das práticas mais comuns na agricultura familiar do Semi-árido é a queima da vegetação nativa para o preparo do solo. A fácil limpeza da área, no entanto, traz como conseqüência um paulatino enfraquecimento da terra a cada colheita, até que se torne estéril ou exija o uso de grandes quantidades de fertilizante e de agrotóxico. Por esse motivo, a Articulação do Semi-Árido (ASA) tem promovido, por meio das entidades vinculadas a ela, modelos de produção baseados no conceito de agrobiodiversidade e agrofloresta, que consiste em valorizar o plantio de espécies nativas, a policultura, o aproveitamento e o manejo de recursos naturais.
“A conservação da agrobiodiversidade é um fator relevante para o desenvolvimento sustentável e para valorizar as diferentes experiências de trabalho com a terra, a água e os recursos genéticos vegetais e animais locais e adaptados. Quanto mais diversificados forem os sistemas de produção, mais autonomia, resistência, resiliência e maior estabilidade apresentarão. A manutenção da agrobiodiversidade depende da conservação, manejo e reprodução do patrimônio genético, como símbolo da continuidade da vida”, descreve a Carta Política da ASA, divulgada no dia 24, último dia do VI Encontro da Articulação do Semi-Árido (Enconasa).
A Associação Cristã de Base (ACB), vinculada à ASA, é uma das entidades que tem trabalhado com a população da zona rural do estado do Ceará. Em reuniões com os pequenos agricultores, divulga informações sobre técnicas de agroflorestas e promove a conscientização ambiental na tentativa de mudar o conceito de exploração agrária.
José Cazuza da Silva, conhecido como Zé Padre, é um desses agricultores que acabou convencido a experimentar novas formas de plantio. Há oito anos ele cultiva um hectare de terra, em Nova Olinda (CE), sem queimadas e sem agrotóxicos. Ele conta que a terra era muito pobre e a roça não vingava. “Antes, quando a terra era nua, a água batia e descia direto, levando o adubo. Passei a trazer feixe de mato para cobrir e, agora, durante o inverno (época das chuvas), a água não corre mais”. Em suas terras, há uma variedade grande de espécies plantadas, como abacaxi, caju, sucupira, ipê etc. “Quando estava plantando milho, as pessoas me achavam louco, porque milho não dá nessa terra. Hoje, em 1 tarefa (um quarto de hectare), colho 30 quilos”, conta orgulhoso. A diversificação de culturas permite a atividade agrícola durante todo o ano.
Um outro exemplo de experiência bem sucedida, também incentivada pela ACB, é de José Raimundo de Matos, o Zé Artur. “Sempre plantei brocando e queimando. Em 97, comecei a plantar sem queimar e, quando vi o resultado, prometi nunca mais queimar”. Dos seus 18 hectares de terra, o pequeno agricultor dedica um terço ao manejo da agrofloresta. O seu terreno todo verde contrasta com o do seu vizinho, que acabara de queimar a terra para iniciar o plantio de mandioca, deixando o solo exposto ao sol ardente.
A quantidade de espécies diferentes que compõem o seu plantio é vasta. A sobrevivência da sua família vem toda desses cultivos. “Como planto muitas espécies, alguma coisa sempre dá. Nunca falta”. Ao contrário de Zé Padre, Zé Artur não conta com uma cisterna. Ele diz que, quando teve a oportunidade de ter uma, resolveu ceder para dois vizinhos que precisavam mais. Para irrigar os seus cultivos durante a época da seca ele conta com a água armazenada em plantas como a seriguela, cacto palma e umbu.
O Assentamento 10 de Abril, localizado a 29 quilômetros do município cearense de Crato, abriga uma horticultura orgânica, cultivada por cinco famílias. A horta, que ocupa 1,5 hectare, contrasta com a paisagem e a vegetação da caatinga de solo pedregoso e clima quente. O grupo cultiva uma diversidade de hortaliças, frutas, grãos e plantas medicinais nos moldes da agrofloresta, utilizando biofertilizante, produzido na própria horta. No passado, essas famílias, somadas a outras 45, fizeram parte de uma dura luta de enfrentamento pelo direito à terra, organizadas em acampamentos do Movimento dos Sem-Terras (MST).
Para essas produções cultivadas nos moldes da agrofloresta, a ASA defende o acesso dos agricultores familiares aos mercados locais, como garantia da comercialização desses produtos.
“O nosso papel está na valorização do intercâmbio de experiências. O trabalho é o de transição agroecológica, que põe em marcha um movimento social de inovação e integração desses agricultores. Não se discute apenas questões de ordens técnicas e metodológicas, mas também um processo de politização que favorece as condições de forças sociais e política para uma luta mais ampla”, explica Luciano Marçal Silveira, coordenador executivo da ASA Brasil.
* A repórter viajou a convite da Articulação do Semi-Árido (ASA).
Fonte: Agência Carta Maior
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eu achei muito legal beijos tchau thau