Explorar a biodiversidade

O isolamento dos povos da Amazônia fez surgir a tradição popular do uso de mezinhas extraídas da flora e na fauna regionais. Nos últimos anos, as receitas dos nativos, o potencial das espécies, o registro de suas marcas e patentes industriais têm sido objeto de biopirataria, com graves prejuízos para o patrimônio cultural brasileiro.

Enquanto o governo não incorporar a região Norte à agenda prioritária de suas grandes decisões, tais expedientes continuarão. Os residentes na floresta permanecem desguarnecidos, sem controle sobre pesquisadores estrangeiros e instituições biopiratas, travestidas de organizações não-governamentais, que estariam mapeando a biodiversidade.

A pouca atenção atribuída à metade do território nacional chega ao ponto de provocar situações hilárias, porém preocupantes, como o propósito do empresário sueco Johan Eliasch de reunir US$ 18 bilhões para comprar toda a floresta amazônica. A aquisição seria para aplacar as mudanças climáticas evitando-se, assim, tragédias naturais de grande porte.

Tratando-se de área onde o poder público é o grande ausente, a lei e a ordem são ditadas pelos costumes regionais e as terras continuam devolutas, nada é impossível. O próprio Johan Eliasch se diz “dono” de 160 mil hectares de floresta, em Manicoré e Itacoatiara, comprovando-se a rotina dos desmandos nas terras e em seus registros legais.

Não se pode negar as ações pontuais do governo federal na tentativa de regularizar a estrutura fundiária da Amazônia. Entretanto, elas não saem do papel para intervenções objetivas, preventivas e consistentes, ficando restritas, apenas, à publicação dos atos formais no Diário Oficial da União.

Nos últimos dias, foram criadas mais três reservas ambientais, envolvendo áreas de 1,84 milhão de hectares: o Parque Nacional dos Campos Amazônicos, com 880 mil hectares, e as reservas extrativistas dos Rios Unani, com 830 mil hectares, e Arapixi, com 133 mil hectares. Sem a posse efetiva das terras e um plano de manejo de seus recursos, suas riquezas serão destruídas com maior velocidade por grileiros, madeireiros e atravessadores.

A vasta farmacopéia popular tem base consistente na flora amazônica. Pesquisadores da Universidade de São Paulo acabam de comprovar, cientificamente, ser a resina da copaíba um antiinflamatório duas vezes mais potente em relação aos mais difundidos fármacos da linha alopática.

No gênero Copaifera, há várias espécies de árvores, algumas servindo como matéria-prima para cosméticos e vernizes. Na medicina popular, seu uso vem sendo feito como antiinflamatório, antisséptico e cicratizante. O óleo de copaíba é composto por duas frações diferentes: uma pastosa e outra volátil. O fármaco do processo descoberto se baseia no segundo e já está patenteado.

O governo federal não pode abrir a Amazônia à exploração oportunista sem antes conhecer o potencial de sua biodiversidade.

Fonte: [ Diário do Nordeste ]


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Autor: Anderson Porto

Desenvolvedor do projeto Tudo Sobre Plantas

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