Verde dentro da própria casa

Bauruenses valorizam a natureza e mostram que é possível preservar o que seria facilmente destruído na hora de construir

Luis Cardoso/Agência BOM DIA

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É de fazer inveja a qualquer jardim. Deixar áreas verdes em casa é algo louvável em tempos de aquecimento global. Mas deixar árvores e preservar as características naturais do terreno supera qualquer modismo arquitetônico. Em Bauru, há quem leve isso a sério e mantenha árvores (isso mesmo) dentro de casa.

Para o empresário Carlos Francisco da Silva, 55 anos, não há nada demais nisso. Apenas cumpriu uma promessa de infância. O ipê amarelo de 13 metros de altura tem lugar nobre no terreno, hoje ocupado pela sua pizzaria e pela casa onde mora com a mulher e os cinco filhos, na avenida Nossa Senhora de Fátima.

A construção foi toda adaptada para manter a árvore no local, ainda que muitos acreditassem que a idéia fosse impossível. “Falavam para eu cortar, mas não queria”, recorda-se.

A história do ipê começou há tempos – 48 anos, para ser exata. Ainda menino, Silva percorria aquela região de bicicleta com o irmão para apanhar frutas. Mal existiam casas. No areião, como ele define, só existiam árvores, entre elas o ipê. “Sempre o admirei e dizia: ‘Um dia, esse terreno será meu’.”

A admiração, porém, não era suficiente para ele ser o dono do lugar. Com mais dez irmãos, não estava nos planos dos pais dele comprar um terreno. Mas, há 19 anos, Silva, enfim, o comprou. A árvore ainda estava lá, mas não floria. Há dois anos, começou a construir a casa e a pizzaria. Deu trabalho. “Fiz de tudo. Mudei todo o projeto para deixar a árvore”, conta. Naquele ano, o ipê voltou a florir. “Ela não recebia cuidados”, explica.

Para a árvore ter espaço, Silva aumentou o corpo da casa e mudou a garagem de lugar. Ela fica na entrada da pizzaria, pode ser vista de outros pontos do imóvel e dá sombra para a casa. “Acordo e dou de cara com ela. Não atrapalha em nada. É um visual maravilhoso”, diz.

Outros exemplos

Não é fácil encontrar, mas existem lugares onde a natureza não perdeu lugar para o cimento. Num residencial às margens da rodovia Bauru-Ipaussu, o projeto de uma casa foi alterado para manter intactas duas árvores cinzeiros.

Em um bar na zona sul da cidade, árvores fazem parte da decoração do local e ficam rodeadas pelas mesas do estabelecimento. Em 1987, o arquiteto Maurício Costa planejou a construção de uma loja na avenida Duque de Caxias para que fosse retirado um ipê amarelo. Vinte anos depois, ela não está mais lá – só uma outra loja. “Uma pena. A árvore era linda.”

Ter árvores em casa não é novidade para o empresário Carlos Francisco da Silva. Na infância, o quintal e a frente da casa onde viveu eram bem ocupados por pés de jaboticaba, abacate e limão.

Entre os tipos, o preferido são os ipês – o da casa tem flores amarelas. Com o sonho de comprar o terreno (com a árvore) realizado, Silva agora espera a próxima primavera para ver a planta totalmente amarela. Depois disso, sonha com uma propriedade rural. Para ter mais árvores.

Custos e consciência barram a arquitetura sustentável

Construir sem degradar não se resume a manter as árvores intactas, mas é um dos exemplos do que arquitetura sustentável, ou bioarquiterura, significa. Uso de materiais não convencionais, preservar características naturais do terreno e prever o uso de recursos naturais, como o sol e a chuva, são outros elementos. Mas não é tão simples assim.

“É algo que ainda precisa crescer no país e que requer muito incentivo do poder público”, considera a arquiteta Emilia Falcão, professora da Faac (Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação), da Unesp (Univer-sidade Estadual Paulista), em Bauru.

Mas o elevado preço de produtos adequados para esse tipo de construção dificulta a prática, na avaliação da professora. Daí a necessidade do poder público e da iniciativa privada incentivarem a prática. “E as pesquisas ainda têm de crescer”, complementa Emilia.

Aliar construção e preservação é algo considerado ainda muito recente. As primeiras idéias surgiram em meados do século 20, mas há apenas 15 anos se tornaram mais presentes no dia-a-dia.

Além de serem novos, Emilia Falcão lembra que nem sempre é possível adotar os conceitos da arquitetura sustentável (ou ecológica), já que tudo depende das características físicas do lugar. Manter árvores no meio do terreno, por exemplo, não é apenas questão de consciência – é necessário fazer avaliação técnica para saber se as raízes não vão prejudicar a estrutura da construção no futuro, por exemplo.

Para adotar essas idéias, portanto, especialistas aconselham prever isso ainda na elaboração do projeto e com a orientação de profissionais. “Mas sempre que possível, o ideal é manter a paisagem natural do terreno. Acho que a nova geração já está mais preocupada com isso”, considera o arquiteto Maurício Costa.

Copaíba: árvore é símbolo de preservação

Além de representante do cerrado bauruense, a copaíba simboliza a preservação inteligente do meio ambiente diante do progresso. Não fossem atos públicos, a árvore seria arrancada com a duplicação da avenida Getúlio Vargas.

Em 1996, o Instituto Ambiental Vidágua e a escola Guedes de Azevedo fizeram um movimento de protesto e a árvore foi mantida. Centenária, ela é conhecida pelo óleo que produz.

Fonte: [ BOM DIA ]


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Autor: Anderson Porto

Desenvolvedor do projeto Tudo Sobre Plantas

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